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O Veneno do campo à cidade

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Foto: Fernando Frazão

Por Yuri Sá*

O povo sergipano precisa saber sobre a mentira que nos passam a respeito dos venenos que são utilizados na agricultura, afinal desde o agricultor até o Governador, buscam alimentar-se com qualidade e variedade de acordo com as suas necessidades.

Temos que começar a nos atentar cada vez que vamos ao supermercado e pegamos um alimento derivado de soja ou milho, cuscuz, por exemplo, olhar se na embalagem tem a sigla dos transgênicos (Imagem 1), que geralmente fica bem escondida e pequena. Esse símbolo esconde vários segredos importantíssimos para o consumidor, tão importantes quanto o prazo de validade. Mas você sabe quais são?

transgenicos

Imagem 1 Alimento Transgênico

A sigla do transgênico significa que o alimento possui um processo de produção bem artificial, pois utiliza mecanização agrícola, que exclui a mão de obra do campo; aplica nas lavouras Agrotóxicos desde o plantio até a estocagem, para evitar a predominância dos insetos, fungos e bactérias; utiliza sementes modificadas em laboratórios, as sementes transgênicas, especializadas para serem resistentes a tudo, inclusive aos venenos; e ainda uma infinidade de terras para ser reproduzida a lógica de plantio, pois quem planta com esse “pacote” tem um favorecimento financeiro pelos bancos, mas ainda sim ficam presos aos impostos cobrados, tendo que possuir muita terra e produtividade elevada para pagar as dívidas e sobrar algum recurso.

O que conduziu até os dias atuais o favorecimento dessa forma de produzir foi o pretexto de acabar com a fome no mundo, mas a verdade é indiscutível, a fome não acabou e teve como saldo negativo o agravamento dos venenos nos campos brasileiros e sergipanos, pois desde 2005 quando começou a liberar os transgênicos no Brasil o aumento do consumo dos agrotóxicos cresceu gradativamente.

Se avaliarmos esse sistema de produção, o Brasil tem o desprestígio de ter a segunda maior concentração de terras do mundo, perdendo apenas para o Paraguai (Parte dos maiores detentores de terras são Brasileiros). Além disso é o campeão mundial de uso de Agrotóxicos, sobrando para os/as brasileiros/as consumirem anualmente cerca de 7 litros de veneno, segundo a Campanha Permanente contra o uso de Agrotóxicos e pela vida. Na prática, é como enchermos três garrafas pet de 2,5 litros com uma mistura de vários agrotóxicos e consumir durante cada ano de nossas vidas. E você leitor, já bebeu sua dose de veneno hoje?

o-veneno-esta-na-mesa

Indicamos para entender melhor o assunto os filmes: “O Veneno está na mesa” (http://migre.me/tsQqr) e o “O Veneno está na mesa II” (http://migre.me/tsQrA) de Sílvio Tendler

O nosso país chega a ser chamado pelas outras nações como “A Lixeira do Mundo”, pois os venenos que não são permitidos em outros países por vários motivos, no Brasil, inacreditavelmente é libera a sua comercialização. A explicação é simples e óbvia: as seis maiores empresas do mundo em produção de Agrotóxicos financiam as campanhas eleitorais dos políticos brasileiros, mais conhecidos como a “Bancada Ruralista” do Congresso, esperando claramente o retorno em leis e liberações de seus produtos no país. Temos como exemplo, os 14 tipos de Agrotóxicos já proibidos em alguns países do mundo, porque o grau de periculosidade deles são os mais altos possíveis.

Como o ditado popular diz: “O rio só corre para o mar”. Como maneira de mascarar esses venenos, está em tramitação duas leis no congresso. Uma que retira os símbolos dos transgênicos das embalagens, inibindo assim o direito do consumidor de escolher se ele (a) prefere um alimento transgênico ou não e outra que modifica o nome “Agrotóxicos” por produtos “ Fitossanitários”, simplesmente para proteger os interesses empresariais.

Empresas como a Monsanto, Bayer, Syngenta não se contentaram em produzir apenas venenos, mas já detêm a indústria das sementes, bem como a dos remédios. Sim, a dos medicamentos também. A “máquina” não pode parar de produzir lucro. Sabidos os efeitos colaterais dos Agrotóxicos à saúde humana, estrategicamente a indústria do campo destinou suas artilharias para a indústria farmacêutica.

A Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) já nos dizem diariamente em seus estudos e relatórios os impactos para saúde que os Agrotóxicos causam. Podemos ver o número de casos de câncer que aumentou nas últimas décadas, pois nossas rotinas e nossa alimentação estão indo de mal a pior. Para esse ano de 2016, estima-se mais de 600 mil novos casos de câncer no Brasil. Alarmante não? Mais alarmante é saber que o aparelho de Radioterapia do HUSE em nossa capital aracajuana vive quebrando. Temos que fazer algo e urgente.

Os movimentos sociais do campo, da área da saúde, juventude, de moradia, sindicatos e instituições de pesquisa e ensino já começaram a atuar em prol da saúde do nosso povo e do ambiente. Nos dias 06 e 07 de Abril, Dia Mundial da Saúde, foram realizadas atividades de discussão, feira da Agricultura Camponesa e uma “Passarela da Saúde” na Praça General Valadão no centro de Aracaju, onde foi possível dialogar e informar as causas e consequências do modelo de vida colocada para nossa população.

Além disso, é possível observar outras saídas para esse cenário de tragédia orquestrada, é o que os camponeses chamam de Projeto Popular para o campo. Nele busca-se a autonomia camponesa, uma independência completa, de qualquer empresa transacional, visando fornecer para cidade e para o próprio campo alimentos de matriz Agroecológica, sem qualquer uso de agrotóxicos e que respeite os princípios de um meio ambiente sustentável, da economia solidária e valorização do papel da mulher nos processos diários.

Para isso os camponeses estão resgatando as variedades de sementes que existiam antes da chegada das transgênicas, produzindo os próprios adubos e buscando técnicas apropriadas. Mas não depende só deles. É preciso desenvolver máquinas apropriadas ao pequeno produtor, incentivos públicos como leis e financiamentos, bem como um mercado consciente que sinalize essa nova demanda. Na capital sergipana já temos de maneira tímida ainda a Feira da SEIDS e o Cantinho da Roça, onde comercializam esses produtos ricos em todos os aspectos.

Catinho da Roça

Feira do Cantinho da Roça com frutas, legumes e verduras orgânicas direto da família camponesa para a mesa do consumidor.

Por fim, sugiro que o país deva passar por várias reformas, dentre elas a Agrária, que consiga manter o camponês no campo, com incentivos para criação de agroindústrias, educação contextualizada criando escolas e universidades públicas, gratuitas e de qualidade no campo, além da garantia de uma assistência técnica adaptada e numerosa, levando os princípios Agroecólogicos de território a território, acompanhada por uma reforma política, mexendo nas estruturas eleitorais do Brasil com uma Constituinte exclusiva e soberana que o povo, e somente o povo, possa ditar as regras desse jogo, exonerando qualquer doação das empresas à políticos.

“Organizar é fundamental para as mudanças acontecerem”.

* Yuri Sá é estudante de Engenharia Florestal na UFS e militante da Consulta Popular

Camisetaria

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1 comentário em O Veneno do campo à cidade

  1. Yuri, ótima reflexão. Quero agregar apenas duas questões:
    1- Hoje do ponto de vista legislativo existem mais de 50 Projetos de Lei que tramitam no Congresso Nacional, buscando alterar a Lei de agrotóxicos (7.802/89), dentre as questões preocupantes encontram-se estas comentadas por você (mudança do nome “agrotóxico” para “produto fitossanitário”, e a retirada do “T” dos transgênicos (que não é uma exigência advinda da Lei de agrotóxicos, mas de outra normativa). PORÉM, o principal problema resido no Projeto de Lei 3200/15, proposto em outubro do ano passado pelo Deputado Covatti Filho. Este PL é uma espécie de síntese de todos os projetos ruins que tramitam no Congresso, e trás como proposta:
    a) Alteração do termo agrotóxico por “produto fitossanitário e de controle ambiental”;
    b) Acaba com o intervalo de segurança para aplicação entre o plantio de uma cultura e outra,
    c) Permite a existência de um determinado grau de toxidade que provoque carcinogenicidade, mutagenicidade, alterações endócrinas, etc. Ou seja, passa-se a permitir que mesmo com esses resultados, os agrotóxicos possam ser registrados no Brasil (isso já não é rigorosamente respeitado pela ANVISA, mas imagine agora com autorização em Lei…);
    d) Cria a Comissão Técnica Nacional de Fitossanitários (CTNFito), que ficará alocada no MAPA (comandado hoje pela ministra dos venenos Kátia Abreu). Tal comissão passará a deter um poder enorme com relação a liberações de agrotóxicos no país (será uma espécie de CTNBio dos venenos, aliás vale lembrar, a CTNBio, nunca negou um pedido de liberação de transgênico no país, mesmo que os laudos técnicos muitas das vezes fossem extremamente contraditórios e questionáveis).
    Enfim, várias outras alterações nefastas na legislação serão advindas da aprovação do PL3200/15, que aliás já tem comissão especial formada para analisar a proposta (analisado pela comissão irá direto para plenário, ou seja, tem o trâmite acelerado).

    2- Outra questão é um pedido de liberação para o controle do aedes aegypti (mosquito da dengue, chicungunha e zika) com aviões, ou seja, realizando pulverização aérea de agrotóxicos na cidade. Isso é extremamente perigoso, afinal, já são mais de 30 anos de luta contra o mosquito com uso de venenos e o que se tem percebido são as intoxicações e contaminações afinal, o mosquito segue “firme e forte”. Trata-se de um pedido de interesse das empresas de aviação aérea e das empresas que comercializam agrotóxicos. Está é uma preocupação bastante importante para estarmos atentos. Recentemente o Ministério da Saúde editou uma nota técnica se posicionando contrário a medida, porém, a proposta segue tramitando e avançando rapidamente.

    Enfim, são muitos os problemas, algumas coisas já estão bem avançadas, tais como a aprovação pela representação brasileira no parlasul, da alteração do nome “agrotóxicos” para “fitossanitarios” com a desculpa esfarrapada de que é para padronizar a linguagem no Mercosul, isso é falso, até porque nos países tais produtos (venenos-agrotóxicos) são chamados de “Plaguicidas”, sendo que o sufixo “cida” evidencia o poder letal de tais substâncias.

    O povo precisa, mesmo em momento tão exigente de nossa conjuntura, não se distrair de tais questões, pois o golpe não é só através do impedimento de Dilma, mas existe em curso pequenos golpes institucionais à várias construções democráticas resultantes de lutas do povo brasileiro.

    Abraços e parabéns pelo texto. Aliás, parabéns a Expressão Sergipana que tem se mostrado um importante e competente instrumento de informação e luta, rompendo o monopólio da informação, exercendo de forma criativa a disputa ideológica necessária construindo contra-hegemonia. Parabéns a todas e todos!

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