Últimas

Coronelismo eletrônico, mídia e política em Sergipe

Whats App Expressão Sergipana

Por Paulo Victor Melo | Blog do PV

– Senador, o microfone é todo seu.

Com essas palavras um repórter da Rádio Rural de Concórdia, em Santa Catarina, iniciou uma entrevista, em 1965, com o então senador Atílio Fontana.

A resposta do à época parlamentar catarinense foi simples e direta:
– Não só o microfone, meu rapaz, mas a rádio toda.

Se na aparência a declaração de Atílio Fontana soa cômica ou folclórica, na essência – 51 anos depois – continua emblemática do que representa o controle dos meios de comunicação por políticos no Brasil.

Enraizado na cultura política nacional, o vínculo entre propriedade de mídia e políticos é um fenômeno que tem atravessado os diferentes períodos da história brasileira e permanece atual, caracterizando a política local, a medida em que rádio e televisão são controladas por grupos familiares representativos das oligarquias locais e regionais.

Essa relação direta entre mídia e política tem como resultado o chamado ‘coronelismo eletrônico’, prática em que políticos se utilizam de concessões públicas de rádio e TV para promover interesses próprios e construir uma boa imagem perante a sociedade. Assim como no velho coronelismo, a moeda de troca continua sendo o voto. Só que não mais com base na posse da terra, mas no controle da informação, na capacidade de influenciar na formação das opiniões.

Ano de eleições municipais, 2016 vai ilustrar (os primeiros sinais já têm aparecido, na verdade) como os coronéis eletrônicos utilizam emissoras de rádio e TV para promover seus aliados, hostilizar os adversários e cercear qualquer manifestação contrária aos seus interesses, produzindo guerras particulares com armas públicas (afinal, é sempre bom lembrar que rádio e TV são concessões públicas, com princípios constitucionais a seguir).

Em Sergipe, assim como em toda a extensão do território brasileiro, o coronelismo eletrônico pode ser percebido de forma cristalina. Velhas e nem tão velhas assim lideranças políticas locais (ou grupos familiares, se preferir) são conhecidas, dentre outras coisas, por possuírem o controle da propriedade de grupos de comunicação.

Os mais antigos foram “beneficiados” na farra da distribuição de concessões em troca de apoios político-eleitorais, que teve o seu auge no final dos anos 1980, quando o Ministro das Comunicações era ninguém menos que o baiano Antônio Carlos Magalhães, um dos maiores controladores de rádio e TV da história do país. Outros, a partir do poder econômico do qual desfrutam e de relações no mínimo duvidosas, perceberam na comunicação um instrumento estratégico de conquista de poder político. É por isso que não é difícil ouvir da boca de sergipanos e sergipanas que a rádio X pertence ao político A, que a TV Y é do político B…

Em alguns casos, a propriedade das emissoras está em nome de políticos com cargos, o que desrespeita o Código Brasileiro de Telecomunicações, de 1962, e a Constituição Federal de 1988, já que os dois documentos legais proíbem que políticos desempenhem a função de diretor ou gerente em empresas de rádio e TV, ou ainda que mantenham contratos, exerçam cargos ou emprego remunerado nestas empresas. Em outras situações, como forma de manobrar a legislação, a propriedade dos meios de comunicação está em nomes de pessoas próximas ou familiares dos políticos.

Como disse anteriormente, em ano eleitoral o coronelismo eletrônico é mais facilmente percebido. Quem o pratica, pensa em ganhar votos. E alguns votos até podem ser ganhos. Mas perdem o jornalismo independente, o público (que tem direito à pluralidade e diversidade informativa, isenta de coloração partidária) e a democracia.

Paulo Victor Melo, jornalista, mestre e doutorando em Comunicação e Política. Artigo publicado na edição impressa do jornal Cinform, edição 1732, de 20 a 26 de junho de 2016.

Camisetaria

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s